24-06-2016 Personagem da Semana

Na semana em que Dois Córregos recebe o tradicional Festival de Poesia e a primeira edição do Festival Literário, a homenagem não poderia ser a ninguém menos do que à pessoa que idealizou todo esse sonho e transformou a cidade na capital da poesia. Nascido em Dois Córregos, no dia 3 de novembro de 1949, ele é filho do farmacêutico e dentista Antônio João Camargo e da farmacêutica Adelaide Mendes Camargo, ambos já falecidos. Casado, ele tem duas filhas. Dr. José Eduardo Mendes Camargo, empresário, presidente da Rádio Cultura, do Jornal O Democrático, do Instituto Usina de Sonhos e vice-presidente do Ciesp, fala sobre sua trajetória de vida e o seu amor pela arte.

O Democrático: Quando começou o seu contato com a literatura?
Dr. José Eduardo: As letras chegaram bem cedo, porque do lado do meu pai, o meu tio Mário era professor e amante dos livros. Desde a tenra idade, sempre estava me passando o que havia de novo na literatura. Do lado da minha mãe, minha avó era professora e minha mãe também gostava muito de ler, às vezes ela declamava, era muito expressiva. Então começou dentro de casa.

O Democrático: E esse envolvimento com a comunidade?
Dr. José Eduardo: Essa parte de gosto pela participação da comunidade no trabalho remonta a alguns movimentos. Um deles, eu já com 16 para 17 anos, via na empresa a meninada sem fazer nada e aquilo me incomodava. Eles tinham tanto tempo livre, era interessante usá-lo para aprimorar alguma coisa. Foi então, que gente desenvolveu um projeto de criação de frangos, depois de horta, depois de um curso de corte e costura. Nesse mesmo período foi fundado na cidade, por um grupo de jovens, o JISCA - Juventude Idealista a Serviço da Cultura e da Arte. Eu me lembro que na época, com 18 anos, fazia o Tiro-de-Guerra. O Guedes era o presidente do grupo e nós fizemos uma primeira exposição de artes plásticas de pintura dos artistas de Dois Córregos e nós descobrimos coisas incríveis, tinham pessoas que a gente nem imaginava que eram pintores. Hoje essas obras estão no Museu da Gente. Então isso já veio de lá e veio numa sequência natural com essa vontade que a gente sempre teve de reinventar, inventar a si e as própria atividades que a gente trabalhar.

O Democrático: E a paixão pela poesia, quando teve início?
Dr. José Eduardo: Ainda recém-casado, a Teca, minha esposa, se interessou pelo projeto ‘Filosofia vai à escola’. Esse projeto na época era coordenado pela professora Maria José Polli. Foi um trabalho muito interessante para o curso primário. Nesse movimento é que surgiu a Usina de Sonhos, nos anos 90. Quando comecei a escrever a poesia, e vi quão bem ela me fez, imaginei que poderíamos tentar estender isso para mais pessoas, devido às múltiplas faces que ela tem. Eu acho que a poesia é pedagogia, ternura, criatividade, harmonia entre as pessoas, prosperidade - se traz e transforma o nosso município num polo turístico - a exemplo de Parati, no Rio de Janeiro, que hoje 50% da receita é na festa literária. E estamos evoluindo nesse sentido, este ano realizamos o 9º Festival de Poesia.

O Democrático: Algo a mais te motivou no sentido cultural?
Dr. José Eduardo: Sim, além disso tudo, eu vivi um momento mágico em Dois Córregos. As escolas da cidade atraíam alunos de toda região, porque sempre teve os professores da melhor qualidade. Vinha gente de Brotas, Torrinha, Mineiros, Jaú, da redondeza toda para estudar aqui. Dali saíram pessoas que se destacaram no Estado de São Paulo e no Brasil inteiro. Então, além dessa cultura dentro de casa, que sempre estimulou a leitura, o questionamento e o diálogo, eu tive o privilégio de estudar na escola pública, que sempre teve uma excelente qualidade de ensino. Depois estudei na FGV, a Getúlio Vargas em São Paulo, mas com a bagagem que levei daqui.

O Democrático: Como consegue lidar com tantas responsabilidades?
Dr. José Eduardo: Eu acho que com o passar do tempo a gente vai aprendendo. Agora me remete uma missão, que meu falecido padrinho Orlando Ometto, que fundou a Usina da Barra, me passou. Eu fiz um estágio com ele e na época ele me disse que no início de tudo ele era uma pessoa muito forte, queria fazer tudo, dirigia caminhão, liderava. Mas, ele teve um infarto e começou a refletir que precisava aprender a delegar, a distribuir, a trabalhar com uma equipe, e isso também era uma característica do meu pai. E o que a gente tem procurado fazer é escolher as boas pessoas para estar ao seu lado e trabalhar como equipe. Assim, a gente se libera na medida que as pessoas crescem junto com você.

O Democrático: Está casado há quanto tempo?
Dr. José Eduardo: Estou casado há 33 anos com a Maria Teresa, a Teca.

O Democrático: É religioso?
Dr. José Eduardo: Sim, sou católico, mas sempre fui curioso de estudar as outras religiões e querer encontrar pessoas especiais de todas as crenças.

O Democrático: Ainda tem algo a realizar?
Dr. José Eduardo: Eu acho que a vida tem ciclos e um dos ciclos mais importantes é criar uma família ajustada. Eu tive esse privilégio. Minhas duas filhas estão formadas, trabalhando muito bem, por conta própria, seguiram o caminho delas, sem necessidade de pedir para o pai abrir as portas. É uma felicidade você ter uma família estruturada e vir criando coisas. O projeto da macadâmia vem crescendo cada vez mais, o projeto do Instituto Usina de Sonhos com as pessoas auxiliando vai evoluindo. E tudo isso nos deixa feliz, mas a gente nunca pode dizer que está completo, temos que nos renovar. Quando a gente monta alguma coisa, que as pessoas assumem e tocam, eu gosto de pensar outro projeto, ou um projeto intelectual, um novo livro, um evento, um projeto de crescimento na parte das artes marciais, como o jiu-jitsu que sempre fui um apaixonado e continuo aprendendo com mestres e meu companheiro João Fernando. Em todas as áreas a gente tem que sempre se renovar. Assim como as máquinas ficam obsoletas, as pessoas que não se renovam também. Elas vão ficando esclerosadas mental e fisicamente. Por isso, procuro estar sempre me renovando.

O Democrático: Quantos livros já escreveu?
Dr. José Eduardo: Até o momento eu tenho publicado apenas livros de poesia, mas já comecei um outro livro contando um pouco da minha trajetória no campo empresarial e profissional, com um pouquinho da base com que a gente procurou trabalhar para se fortalecer e atravessar as turbulências da vida. Meu primeiro livro chama-se ‘Sonhos’, o segundo ‘Delírios’, o terceiro ‘Luminescências’, o quarto ‘Resgate’ e depois, aos 60 anos, fiz uma coletânea  com 60 poetas e 60 poemas que me agradavam, todos de poetas que já tinham falecido há mais de 50 anos, porque não precisava da autorização da família. Então, escolhi entre poetas da língua portuguesa e estrangeiros, naturalmente traduzidos. Esse foi o meu último livro publicado, não cheguei a lançar, mas já está publicado e estará também na feira do livro.

O Democrático: E desses poemas, tem algum especial?
Dr. José Eduardo: Sim, um dos poemas que muito me atrai é do Tagore, um poeta indiano. Mahatma Ghandi, que liderou a libertação da Índia do colonialismo inglês, que significa ‘Grande Alma’, foi quem cunhou ele de Mahatma Tagore. O poeta recebeu o prêmio Nobel de literauta nos anos 50. O poema, que está na contracapa do meu livro, é: ‘Quando eu era jovem, a corrente que me arrastava era forte e rápida. A brisa da primavera derrotava-se a si mesma. As árvores ardiam em flores. E os pássaros não dormiam, cantando sem parar. Eu vivi o dilúvio da paixão. Não tinha tempo para ver, ouvir ou deixar que o mundo entrasse em meu ser. Agora, que a maré da juventude baixou, e eu restei na praia, eu sinto a profunda música de todas as coisas. E o céu abre para mim o seu coração cheio de estrelas”.  

 



Esta matéria teve 303 visitas até agora. Data da publicação: 28/06/2016

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